sexta-feira, 27 de abril de 2012

A cidadania de duas pátrias, a cidade dos homens e o reino de Deus.

Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo. Não digas ao teu próximo: Vai e volta amanhã; então, te darei, se o tens agora contigo. Provérbios 3.27–28.

O livro de Provérbios, na Bíblia recolhe a sabedoria de se viver em contínuo relacionamento com Deus e com o próximo. Os provérbios bíblicos são conselhos sábios para que vivamos e convivamos uns com os outros no “temor do Senhor”. São conselhos que ensinam a nos relacionar bem com os outros em diversas circunstâncias da vida.
Isto nos lembra de que fomos criados por Deus como seres relacionais. Nossa vida só tem sentido através dos relacionamentos que temos. Assim se forma a teia social a que chamamos de sociedade. Ela é marcada por relacionamentos formais, informais, relações de parentesco, de associação, de negócios, de trabalho e de comunidade. O ser humano em sociedade exerce ações políticas, cidadãs, racionais e emocionais que podem ser regidas por leis, convenções e tradição, bem como pelos valores de amizade, amor, paixão, preconceitos, tolerância, ódio ou repulsa. São estas ações que moldam a sociedade de dentro para fora.
O verso que escolhi para esta meditação vem deste livro e refere-se às relações e ações do ser social, do homem em seu ambiente natural, a sociedade. Embora ele tenha sido escrito entre 2.500 a 3.000 mil anos atrás e não use termos modernos como “Ação” ou “Assistência Social”, “Assistencialismo” ou “Clientelismo” que tão bem as ciências sociais têm estudado e definido, alguns conceitos básicos da ação social estão presentes ali. Assim, Vejamos.
O texto nos fala de “direitos” que se têm, simplesmente por sermos humanos. Temos direito ao “bem” que muitas vezes está na mão de outros e não nas nossas. O conselho proverbial, neste caso, dirige-se àquele que tem nas mãos o poder de restituir o bem que pertence ao outro de direito, mas que por alguma razão lhe foi retirado, retido, negado ou roubado.
Conhecemos bem o contexto em que esta espoliação ocorre. A falta de recursos materiais num mundo que funciona à base de dinheiro. A falta de vontade política e a corrupção que impedem que o que é direito de todos se torne privilégio de alguns. A desonestidade, opressão, violência e indiferença que trata o direito à cidadania como favor e a ação para restituir o que foi roubado como exceção e benemerência. A maldade e a soberba que transformam o direito de ser atendido em favor paternalista e muito mais.
O texto também mostra que o necessitado da justa restituição está mais próximo do que imaginamos e nos lembra de que o que ele precisa para desenvolver o seu capital humano pode ser algo que está em suas mãos, mas que você retém, desvalorizando aquele potencial ou deixando para fazer amanhã o que o outro necessita e lhe pertence hoje!
O sociólogo Betinho costumava dizer que “a fome tem pressa” e o sábio de três milênios atrás diz que não agir quando está em suas mãos o fazer o bem a quem de direito ou reter o que o outro precisa para ser gente é como roubar a si mesmo. O texto diz: “não te furtes...”. De fato, às vezes a nossa omissão se volta contra nós mesmos.
Os conceitos de um relacionamento social sadio presentes no texto são:

As pessoas têm Direitos e Necessidades, mas as oportunidades de acesso ao que lhes pertence e à satisfação de suas necessidades numa sociedade injusta frequentemente estão nas mãos de outros. Ás vezes estão nas próprias mãos dos  espoliados, mas eles não têm consciência disto.
O texto se dirige a nós, sugerindo que nós podemos ter em nossas mãos o que pertence a outros, o poder de fazer com que a justiça e a oportunidade cheguem a quem de direito ou apenas a capacidade de abrir-lhe portas que lhes possibilitem encontrar os seus caminhos e desenvolver as suas potencialidades. Não fazê-lo é roubar a nós mesmos e aos outros a dignidade da cidadania tanto da terra como do céu.
Como todo o livro de Provérbios pressupõe que seus leitores devem viver sob o “temor do Senhor”, reter o que pode potencializar ou alavancar o próximo é reter a vida. É injustiça pecaminosa e cria empecilhos à realização da sociedade no temor do Senhor. É falta de cidadania, não somente no moderno conceito sociológico, mas no conceito bíblico de ser cristão e cidadão do Reino de Deus e dos homens ao mesmo tempo. É viver sem seguir o sábio conselho do rei Ezequias aos juízes de seu tempo, conforme 2º Crônicas 19.7 - “Agora, pois, seja o temor do SENHOR convosco; tomai cuidado e fazei-o, porque não há no SENHOR, nosso Deus, injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno”.

Fazer o que está ao seu alcance para que aqueles que estão próximos alcancem o que lhes é de direito é viver o equilíbrio entre o reino de Deus e a cidade dos homens. É exercer cidadania plena, que preenche a terra e alcança os céus. É cidadania plena diante de Deus e diante dos homens!
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