sábado, 10 de abril de 2010

Ressaca, lama e lágrimas: à procura de um sorriso...

Hoje é sábado, amanhã é domingo. A lama veio em ondas como o mar. (Vinícius de Moraes revisitado)
Tragédias como as que aconteceram no Rio de Janeiro e Niterói nestes meses de Janeiro (ilha Grande e Angra dos Reis) e abril (Rio e Niterói) produzem muito mais do que lama, escombros e sujeira. Revelam o que há de melhor e o que há de pior nas pessoas e na sociedade. Situações extremas trazem à tona o que guardamos no limite de nossas almas...
Especialmente esta semana dolorida (5 a 9 de abril) foi marcada por tristezas, angústias, pânico, revolta, preconceito e algumas alegrias de quem perdeu muito e muitos, mas salvou-se alguém, descobriu irmãos até entre desconhecidos. Precisamos urgentemente de mais sorrisos e alegrias (até por uma questão de equilíbrio).
As chuvas caíram mais violentas, embora na época certa, lembrando "águas de março, fechando o verão", só que em abril. Por isso o dia da mentira, 1º de abril, foi adiado para depois da chuvas. Estamos agora à procura da " esperança de vida em meu coração", como profetizou o Tom.
Junto com a lama e o lixo deslizante do morro do Bumba, na Rua Viçoso Jardim, próximo ao morro do céu (seria irônico, se não fosse trágico), descobriram muito lixo e lama debaixo do tapete de uma ocupação irregular urbanizada pela PREFEITURA, vascularizada de água pelo CEDAE, eletrificada pela AMPLA e provavelmente explodida pelo gás metano, entretecido no interior da terra, responsável pelo efeito estufa e, quem sabe, pela chuvas torrenciais. Nem ele aguentou: explodiu!
O dinheiro mais recente da prevenção de enchentes do ministério "sei lá o quê" foi quase todo para o Estado onde o ministro é candidato a governador, talvez por isso, lá tenha chovido tão pouco e só deu as caras depois do TCU auditar, a Imprensa gritar e o presidente reclamar... da Imprensa. Se viesse prá cá seria aplicado onde não há enchente, talvez no espelho d'agua do MAC. A imprensa prestou um relevante serviço público, mostrando a dor das pessoas em closes que provocaram lágrimas e deram muito ibope. Os especialistas foram chamados para apresentar explicações, e falar das soluções que muitos propuseram em teses de doutorado e dissertações de mestrado, estudos de caso, que nunca foram lidas, a não ser pelas bancas examinadoras. Pena que ninguém leu, mesmo os protocolados na burocracia estatal.
Descobri que há muito mais especialistas que soluções e que os acadêmicos, como eu estou tentando ser, quase sempre estão aprisionados em torres de marfim guardados por dragões burocráticos e barreiras e obstáculos dignos de videogame intrasponíveis. Quando o prefeito da cidade do outro lado da Baía mandou ficar em casa, os moradores de cá, obedeceram e ficaram. Só que suas casas tornaram-se o menos seguro dos lugares...
E no meio da lama surgiram os verdadeiros heróis, mais parecidos com "Shrek", do que com o "Encantado".
Vivem nos pântanos, alimentam-se de coisas nojentas, mas, quando necessário, saem em busca de amigos soterrados, casas despencadas e gente sem teto. Se você assistiu a animação da Disney vai lembrar que enquanto o Ogro foi buscar ajuda junto às autoridades para abrigar os personagens de conto de fadas desapropriados de suas histórias, o candidato a príncipe  olhava-se no espelho procurando sua Princesa, que legitimaria a sua coroação. O governante, ou prefeito, ou governador, ou presidente chamava-se Farquad: um nanico prepotente e auto-promotor, com verbas milionárias para propaganda Institucional. Os Shreks, os bombeiros e alguns burros de carga anônimos e simpáticos escavavam a terra, resgatavam dramaticamente, choravam seus mortos e os dos outros... Alguns saiam para ajudar o vizinho e quando olhavam prá trás percebiam que perderam casa, família, tudo... Outros, até a esperança.
O pior foi a irritante busca de culpados!
Como diria Drummond:
O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

As autoridades colocaram a culpa nas vítimas, quem mandou morar no lixão? Outros na chuva, no mar que represou as enchentes, nos céus, em Deus, já que suas costas são as mais largas do universo. A Imprensa, consciência da nação, colocou a culpa nos governantes e se esqueceram que se esqueceram de relembrar todas as tragédias sem solução do passado e as promessas não cumpridas de sempre, quando ainda dava tempo de salvar algumas vidas. O arquivo fabuloso de fatos  que eles armazenam dão bons documentários e só serão reabertos na próxima tragédia. Boris Casoy foi dos poucos que reconheceu que não são só os políticos e a maioria silenciosa se esquecem, mas "nós também da Imprensa".
Quem não esquece é quem perdeu tudo e terá que procurar outro morro quando os abrigos provisórios forem fechados dentro de alguns dias. Quem perdeu pai, mãe, irmão, filho, sobrinho e nem tem foto ou mapa da arcada dentária para retirar seus queridos do IML. Esses não vão esquecer nunca! Falando em IML, precisava de identidade ou fotografia ou radiografia de arcada dentária prá identificar corpos. E miserável lá tem dente? Que dirá dentista com radiografia "bite-wing"!.
No meio de tudo isto as igrejas e crentes, de todas as crenças, mobilizaram-se: Algumas, em geral as mais pobres, abriram seus templos para abrigar os desabrigados. Cozinheiros e fiéis tornaram-se voluntários cheios de vontade. Muitos, como eu,  descobriram quanta roupa, sapato e cobertores guardam em casa sem usar, esperando que a traça e a ferrugem corroam. Lembramo-nos daquele fogão usado no quartinho dos fundos que ainda consegue fritar ovo. Descobrimos que as pessoas precisam de papel higiênico, as criançcas precisam de fraldas, os dentes que sobraram precisam de pasta e escova e que todos precisam de água limpa para se lavar e beber. Outras igrejas descobrem que só tem teologia para a prosperidade e gente bem sucedida, mas não prá desgraça. Alguns pastores ganharam assunto para mais algumas semanas de pregação...
Quem se envolveu ou foi envolvido descobriu que as pessoas precisam de abraços, lágrimas e sorrisos.
Outro efeito colateral é o medo, o pânico e a histeria. Por exemplo; Uma manifestação pacífica de ex-moradores do Morro de Estado foi o pretexto prá gente sem limites (dizem que foram só dois meliantes)  quebrar vitrine de loja. Um furto, que virou saque, que virou arrastão no boca a boca. Este pequeno abalo cívico gerou uma onda de pânico e boatos por todas as mídias e redes, virtuais ou não, que em poucos minutos viraram um arrastão maior que um tsunami. Em meia hora, do Rio de Janeiro, li e ouvi que o " Arrastão"  começou em Alcântara, varrendo Fonseca, Centro, Ingá, Icaraí, Cubango, Largo da Batalha e Uruguaiana no centro do Rio (Quem conhece a região sabe o tamanho do estrago) com a velocidade do twitter e dos SMS's. Nunca as redes sociais funcionaram tão rápido: Foi um "Flash-Mob" às avessas. Fiz um pequeno resumo de tudo o que ouvi e li na internet, nas rádios e das pessoas que conversei em um post de desabafo chamado "Anatomia de um Arrastão" neste mesmo blog. Depois de me angustiar pela minha mulher, amiga e amigos pegos no meio de um tsunami de boatos capaz de fechar lojas e provocar correrias e sustos de verdade, tentei rir de tudo, mas acho que foi um riso histérico pós-traumático. Deus sabe como eu precisava de uma risada naquela hora...
Apesar de tudo isso, o mar dava um espetáculo de ondas que me lembrou o Salmo 96:11-13:


Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com eqüidade. 11 Alegrem-se os céus, e a terra exulte; ruja o mar e a sua plenitude. 12 Folgue o campo e tudo o que nele há; regozijem-se todas as árvores do bosque, 13 na presença do SENHOR, porque vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, consoante a sua fidelidade.
Não vejo a hora...
 


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