sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Conversas com Bia 2 – Jornada na Maré ou viajando na maionese da Linha Amarela.

Entrada do Complexo da Maré


Foi um domingo diferente. Ao invés de nos dirigirmos para a Catedral Presbiteriana do Rio tomamos o rumo da Barra da Tijuca e fomos à organização da Igreja das Américas. A Bia estava light, isto é, mesmo eu errando a entrada da Linha amarela e tendo que entrar na entrada de Ramos e voltar pela linha vermelha, passando duas vezes pela mesma entrada sem conseguir decifrar a incrível malha viária da Avenida Brasil, ela não surtou! A Bia detesta a Av. Brasil!


Neste trajeto de 45,4 km conversamos. O primeiro assunto foi light como o estado de ânimo da Bia: O incrível trânsito do Rio e seus incríveis motoristas, mas sobre isto falo em outro post.


Nossa discussão girava em torno do fenômeno dos blogs e twitters e facebooks, fotoblogs e orkuts que pululam na internet. Incluí na lista também os “reality show”s. Logo a conversa ficou mais séria, cabeça. Considerávamos a possibilidade de eu editar um blog e os temas que eu gostaria de tratar nele. A possibilidade de escrever um blog “redesperta” em mim um escritor enrustido, que ainda dorme, roncando desbragadamente em minha alma. Filosoficamente ponderei que escrever um blog é uma auto-exposição invasiva de intimidades privadas. Uma espécie de “Big Brother” intelectual... Bia, de modo light, discordou veementemente. Contra-argumentei.


É incrível como a internet e a TV transformaram-se numa vitrine para auto-exposição. Talvez você se pergunte o que uma coisa tem a ver com a outra, mas a Bia e eu concordamos (não sem pouca discussão) que esta proliferação de sites de relacionamentos, blogs e páginas pessoais têm origem numa necessidade intrínseca do ser humano em relacionar-se. Esta necessidade o leva a se expor pelos meios e mídias que tem ao seu alcance. E a Internet está cada vez mais ao alcance.


A internet (e um pouco a TV) é o paraíso da virtualidade. Não somos realmente pessoa na internet ou na TV, tornamo-nos personagens de uma “second life”. Talvez como compensação pela pobreza nos relacionamentos significativos que vivemos na pós-modernidade, a internet tornou-se um refúgio para solitários e idealistas que querem se comunicar (para pedófilos, tarados, voyers e exibicionistas também, infelizmente).


Eu explico: O jornalista que tem uma pauta a seguir e nem sempre pode dizer tudo o que pensa no veículo midiático em que trabalha tem a liberdade de expor suas opiniões no blog que publica. O escritor não publicado exercita sua verve literária e se expõe na internet para potenciais milhões de leitores possíveis. A menina que se acha bonita (e talvez o seja) coloca suas fotos no Orkut, expõe suas fantasias em sites de namoro e chats. Web-cam`s há por toda a rede também!


Qual a diferença daquele que concorre à oportunidade de se expor em um “reality show” onde suas belezas naturais ou turbinadas serão mostradas em todos os ângulos possíveis e em alta definição do LCD? Bia não concordou que sejam iguais, pois, expor-se em um “reality show”, não é o mesmo que se expor em um blog.


“É verdade, é muito mais chic!” retruquei.


Como eu estava inspirado naquele dia (talvez pela adrenalina de passar pelo Complexo da Maré procurando uma saída para a linha vermelha ou amarela, sei lá) obliterei que era o mesmo processo de escrever um livro ou artigo ou até uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado: Uma manifestação de nosso desejo de fazer diferença no mundo: explicitar-se, expor-se, manifestar-se.


Meu argumento é que podem ser níveis diferentes de exposição que variam desde a conveniência à inconveniência, do bom gosto ao péssimo gosto, da irrelevância total à mais genial relevância; mas que no fundo, no fundo, mas bem no fundo mesmo são todas formas de exposição. Cheguei a citar Drummond de Andrade:


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.


Mundo Grande - Carlos Drummond de Andrade


Fazer poesia para ele é “despir-se, expor-se cruamente nas livrarias”.


Quando vejo uma destas celebridades de Andy Warhol tentando prolongar seus 15 minutos de fama através de uma exposição “sensual” ou alguma extravagância autopromotora, fico me perguntando que tipo de exposição é mais desnudante: do corpo, das idéias, das opiniões ou da alma?


Quando tinha 13 anos comecei a escrever poesia, pois alguma coisa dentro de mim queria se explicar. Aos 14, comecei a aprender violão, pois sonhava em compor músicas para minhas poesias. Aos 15 uni-me a um grupo de teatro e me apresentei em palco várias vezes, pois o teatro é a forma mais nobre de arte (acreditava nisso na época). Aos 16 botei uma roupa de hippie e sentava na praça fazendo artesanato... Dou graças a Deus que na minha época não tinham inventado ainda o Big Brother pós-moderno. (O Big Brother original, o moderno, era um tirano aterrorizante criado por George Orwell no livro “1984”). Será que não me tornei um “global” pela sorte de ter nascido muito antes dos “reality show”s? Quem nunca sentiu o desejo de aparecer que atire a primeira pedra.


Acho que nesta altura eu exagerei.


Bia mudou de assunto e juntos, bolamos uma classificação dos motoristas cariocas conforme o adesivo colado em seus carros...(ainda vou escrever sobre isto)


Acho que nossas elucubrações foram longe de mais ou talvez ela tenha ficado com medo de me ver no próximo Big Brother Brasil. Eu por mim, não me importaria em assisti-la no próximo Brazil’s next top model.



Curiosidade

Curiosidade

Se quiser ter uma idéia do percurso onde ocorreu esta conversa, vá para o Google map e se você tiver o google earth, você poderá fingir que está em um helicóptero nos acompanhando no trajeto. basta clicar no link abaixo e a mágica virtual acontece. Não é bacana?

Exibir mapa ampliado
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