segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Conversas com a Bia 1


Eu e Bia conversamos muito! É bom estar casado com alguém com quem se consegue conversar. Foi assim muito antes até de pensarmos em sermos namorados e séculos antes de pensarmos em casar!
Nos conhecemos num princípio de noite em janeiro de 1983, quando os jovens da Igreja Filadélfia de Araraquara foram para um passeio na praia de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. Eu fui convidado pelo pastor da Igreja, aliás pai da Bia e meu professor de Filosofia, para participar do "Acampamento" como seminarista e preletor.
Convém aqui um esclarecimento. Para os participantes daquele "retiro" aquilo era apenas um passeio na praia com amigos da mesma igreja. "Acampamento" ou "Retiro Espiritual" não era bem o que eles tinham em mente. Isso é coisa da cabeça de pastor e seminarista. Devem ter se surpreendido com a novidade de que um seminarista iria participar do evento. Fui para o "retiro" com uma porção de palestras, achando que falaria pela manhã aos jovens, que teríamos momentos de louvor e cânticos, e todo o estereoótipo eclesiástico com o qual estava acostumado. O que encontrei foi um grupo de amigos, que alugou uma casa na praia para curtir o que no interior é muito dificil de conseguir: uma praia! Ninguém me falou nada, nem me tratou mal, mas estava deslocado naquele ambiente descontraído de "casadepraiaalugadaporgrupodeamigosdointerior"
Os cariocas não sabem o que é viver longe da praia! Ir à praia para o carioca ou algum feliz morador de uma cidade litorânea é como fazer um passeio ao Shopping. Já para quem mora no interior, bem, é uma excursão, um evento, que só pode acontecer uma vez por ano, ou nem isso! Exige esforço, preparo, deslocamentos e parafernálias que vão desde roupa apropriada (bermudas, maiôs, etc) até baldes de areia e pazinhas para se construir castelos. É um sonho acalentado durante um ano inteiro. Não se inclui no kit um seminarista para fazer palestras na praia. Nada mais inapropriado!
Quando cheguei, a Bia e os seus amigos estavam na expectativa de que tipo de alienígena o pastor (pai da Bia) havia enviado para estragar a tão acalentada viagem da férias da tchurma! Eu era o alienígena.
Tentei fazer uma ou outra palestra, organizar um período de louvor, mas não havia piano na casa alugada para a Bia tocar os hinos do Hinário Evangélico, nem partitura (ela não tocava nem os corinhos dos Vencedores por Cristo) e para piorar a situação ninguém lembrou (graças a Deus!) de levar um violão no qual eu tocaria as duas únicas canções que eu sabia! Foi um fiasco ou quem sabe tenha sido o fracasso da liturgia eclesiástica que tenha sido o segredo do sucesso! Na falta de palestras e momentos organizados de culto público e solene tivemos que conversar. Foi aí que eu descobri duas coisas: Amizade e bate papo são ótimos para fazer amigos e discipulado (Jesus que o diga) e a alegria de conversar com a Bia.
Não que eu só conversasse com ela, pelo contrário, foi ali que conheci e me tornei amigo de pessoas que fizeram diferença em minha vida. Nem havia segundas intenções em nossa conversas, pois não estavamos interessados um no outro como possíveis namorados. Eu vinha de um relacionamento recém terminado e estava em um outro namoro recém começado. Tinha a firme convicção de que, como seminarista, não deveria misturar as coisas e me envolver emocionalmente com alguém de uma igreja com a qual estava prestes a começar a trabalhar. Havia elaborado um ética sentimental rígida quanto a relacionamentos em meu local de trabalho: a Igreja.
Se bem que estávamos na praia...
Mas mesmo assim, ela não estava interessada e nem eu, por enquanto. Levou cerca de 3 anos para descobririmos que nossas conversas, cartas (não havia e-mails naquela época, ainda bem) e telefonemas escondiam algo mais que nem nós sabíamos ainda.
Bem, comecei este post para contar de alguns assuntos que andei conversando com ela nestes últimos dias, mas não resisti à tentação de contar como tudo começou! Conto das conversas recentes em outro post, mas prá terminar esta reminiscência de 26 anos atrás, lembro de uma conversa memorável naquele "retiro"(ou no do ano seguinte, não lembro, agora) que talvez tenha sido o ínício de tudo.
Começamos a conversar sobre sei lá o quê no fim da tarde e nos estendemos noite adentro quando nos demos conta de que todos já tinham ido dormir. Havia uma turma de corajosos combatentes de muriçocas dormindo na varanda e eu estava "confortavelmente" alojado na Caravan do presb. Pedro. Já era tarde e embora ainda tivéssemos muito assunto, já havíamos passado da hora. Pedi à Bia que gentilmente fechasse a porta da mala da Caravan, mas havia uma mola que "batia" a porta automaticamente quando levemente puxada e "bam"! O barulho assustou todo mundo da varanda, a Bia desatou a rir e D. Cecília (mãe da Bia) acordou. A cena que ela viu: A Bia chorando (de rir), eu preso na Caravan pelo lado de dentro, com cara de assustado (é a cara que eu faço quando rio) e todo mundo levantando assustado com o barulho. Não sei o que eles pensaram, mas lembro-me bem que nossa conversa rendeu uma boa bronca de D. Cecília, que não era de dar bronca, na Bia. Até hoje não sei o que ela pensou. Deve ter imaginado que aquilo podia dar em namoro.
D. Cecília, muito educada, nunca me cobrou nada, embora talvez tenha conversada com a Bia depois. Minha ética sentimental, que não era do conhecimento de ninguém, a não ser de mim mesmo, talvez tenha tenha ficado arranhada perante os olhos de todos. Como levou quase 3 anos para começarmos a namorar, pouca gente deve ter ficado desconfiada de que nossas longas conversas poderiam esconder algo mais. Nossas mães devem ter sido as únicas, pois mãe, em geral vê mais que os próprios filhos.
Mas, o mais importante foi que naqueles "retiros de Caraguatatuba" encontrei uma companheira de conversas que me enriquecem há 26 anos. Só Deus sabe quantas conversas ainda teremos daqui até a eternidade, que passaremos juntos, certamente, conversando sobre mistérios que só lá descobriremos conversando...
É isso aí...
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